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Aqueles que
já promoveram a leitura de O livro dos médiuns,
certamente se recordarão da recomendação
feita por Allan Kardec (1997, p. 481) no sentido de
que “o Espiritismo é toda uma ciência,
toda uma filosofia; aquele que quer seriamente conhecê-lo
deve, pois, como primeira condição,
sujeitar-se a um estudo sério, e se persuadir
de que, como em toda outra ciência, não
se pode aprender brincando”.
Na mesma obra, ao enumerar as fontes às quais
o interessado no estudo deve recorrer, faz questão
de arrolar a Revista Espírita, qualificando-a
como “uma coletânea variada de fatos,
de explicações teóricas e trechos
destacados que completa o que se disse das duas obras
precedentes (O livro dos Espíritos e O livro
dos médiuns), e que lhes é, de alguma
forma, a aplicação” (KARDEC, 1997,
p. 492).
Ao ingressarmos no ano em que se comemorará
o bicentenário do nascimento de Denizard Hippolyte
Léon Rivail, ocorrido a 3 de Outubro de 1804,
dispusemo-nos a explorar um pouco mais a Revista Espírita
e comprometemo-nos em produzir para as páginas
deste Boletim alguns apontamentos de nossas reflexões.
Como fio condutor de nossa tarefa escolhemos as comunicações
espíritas. Elas, como sabido, ao lado da existência
do Espírito e sua sobrevivência após
a morte, das reencarnações sucessivas,
etc., constituem um dos pontos sobre os quais se alicerça
a Doutrina Espírita.
No corrente texto analisaremos a comunicação
atribuída ao Espírito de Afonso Maria
de Liguori, cuja transcrição está
inserida em artigo sobre bicorporeidade, publicado
no exemplar da Revista Espírita do mês
de Dezembro de 1858. Antes de explorar a comunicação,
porém, falemos sobre o comunicante.
Afonso Maria Antônio João Cosme Damião
Miguel Gaspar de Liguori nasceu em 27 de Setembro
de 1696 no seio de família tradicional e nobre,
sendo o mais velho de sete irmãos. Brilhante
e rápido, fez grandes progressos em todos os
tipos de aprendizado. Aos trezes anos tocava cravo
com perfeição. Aos dezesseis graduou-se
em Direito e aos dezenove já exercia a advocacia,
onde, segundo se afirmava, só tinha sucessos
(FEPARANÁ, 2002, p. 11).
Entretanto, foi a partir da perda de uma causa vultosa
para a época que deliberou abandonar a carreira
de advogado passando a visitar doentes. Durante uma
dessas visitas, ocorrida no mês de Agosto de
1723, se viu rodeado por uma luz misteriosa e uma
voz interior lhe disse: “Deixa o mundo. Dá-me
de ti mesmo”. Como o episódio voltou
a se repetir, tomou a resolução de entrar
para o clero.
Sua atividade clerical foi exemplar. Os historiadores
que estudam o período de 1700 a 1800 estão
de acordo em afirmar que o grande exemplo de Afonso
consistiu em viver junto do povo, captar suas necessidades
e oferecer ao povo a esperança da salvação
em Jesus com sua palavra, sua música e sua
sensibilidade humana e religiosa.
Ao fundar, juntamente com outros companheiros, a Congregação
Redentorista, direcionou-a para viver no meio dos
abandonados.
Depois de uma existência profícua, desencarnou
aos 91 anos de idade, sendo canonizado pela Igreja,
entre outros motivos, pelo fato de ter sido visto,
durante sua vida terrena, em dois lugares diversos,
ao mesmo tempo: em sua cela de sacerdote e assistindo
o Papa Clemente XIV, em processo de desencarnação,
em Roma. Tal acontecimento foi havido por milagre.
Em sendo evocado a uma das reuniões assistidas
pelo Codificador, o Espírito de Afonso de Liguori
respondeu a nove perguntas que lhe foram dirigidas.
Vale a pena reproduzir e refletir sobre os textos
de três delas.
1. É verdadeiro o fato pelo qual foste canonizado?
Sim.
Kardec dá início ao diálogo formulando
uma indagação sobre a veracidade do
fato da bicorporeidade acima relatado, de vital importância
para o ato solene da Igreja Católica, presidido
pelo papa, para que alguém, por suas virtudes
e milagres, seja declarado santo e inscrito no cânone
ou rol do santos.
2. Este fenômeno é excepcional? Não;
pode apresentar-se em todos os indivíduos desmaterializados.
Confirmada a ocorrência da bicorporeidade, Kardec
vai mais além. E, na resposta dada pelo Espírito,
encontra-se corroborada toda a explicação
que a Doutrina Espírita oferece ao assunto.
E isto porque, em A gênese, depois de discorrer
sobre a acepção etimológica da
palavra milagre, o Codificador revela que a referida
palavra perdeu, como tantas outras, sua significação
primitiva. Afirma, então, que ”no entender
das massas, um milagre implica a idéia de um
fato extranatural; no sentido teológico, é
uma derrogação das leis da Natureza,
por meio da qual Deus manifesta o seu poder [...]
o que, para a Igreja, dá valor aos milagres
é, precisamente, a origem sobrenatural deles
e a impossibilidade de serem explicados [...] o Espiritismo,
em demonstrando que o elemento espiritual é
uma das forças vivas da Natureza, força
incessantemente agindo concorrentemente com a força
material, fez de novo entrar os fenômenos que
dela ressaltam no círculo dos efeitos naturais,
porque, como os outros, estão submetidos a
leis. Se o maravilhoso foi expulso da espiritualidade,
não tem mais razão de ser, e é
então somente que se poderá dizer que
passou o tempo dos milagres” (KARDEC, 1997,
p. 1876-1877).
3. Poderíeis dar-nos uma explicação
deste fenômeno? Sim. Quando o homem, por sua
virtude, se acha completamente desmaterializado, quando
elevou sua alma para Deus, pode aparecer simultaneamente,
em dois lugares, do seguinte modo: sentindo vir o
sono, o Espírito encarnado pode pedir a Deus
para se transportar a um lugar qualquer. Seu Espírito
ou sua alma, como queiras chamar, então abandona
o seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito
e deixa a matéria imunda num estado vizinho
da morte. Digo vizinho da morte, porque fica no corpo
um laço, que liga o perispírito e a
alma à matéria; e este laço não
pode ser definido. O corpo então aparece no
lugar desejado. Creio que é tudo o que desejais
saber.
O tema da comunicação, como visto, é
a bicorporiedade, que consiste na presença
simultânea do ser encarnado em dois lugares
diferentes, próximos ou distantes entre si
(BORGES, 2000, p. 51). Na visão de Palhano
Junior (1997, p. 55) “em certos estados de emancipação
da alma (dissociação psíquica),
o Espírito de um vivo pode, como o de um morto,
mostrar-se com todas as aparências da realidade,
sendo até mesmo tangível, isto é,
materializado. O seu corpo espiritual ou perispírito,
é que se desloca e se materializa; assim, o
mesmo indivíduo pode ser visto em dois lugares
ao mesmo tempo”.
Os acontecimentos de tal natureza evidenciam a independência
da alma em relação ao corpo. Provado
que o Espírito não está servilmente
preso ao organismo, que não é um simples
escravo das funções orgânicas,
que tem seus momentos de fuga, desprendendo-se ou
libertando-se, ainda que momentaneamente, das amarras
físicas, é fácil compreender
que esse Espírito possa, no final da vida,
desligar-se para sempre de seu envoltório carnal,
para continuar a viver fora dele, nessa fase interminável
da existência denominada morte (IMBASSAHY, 1990,
p. 11).
A solidez doutrinária é manifesta. Cuidemos,
pois, de estudá-la com seriedade para que se
torne cada vez mais conhecida.
BORGES,
A. Merci Spada. Doutrina espírita no tempo
e no espaço. São Paulo: Panorama, 2000.
FEPARANÁ - FEDERAÇÃO ESPÍRITA
DO PARANÁ. Expoentes da codificação
espírita. Curitiba: 2002.
IMBASSAHY, Carlos. In: BOZZANO, Ernesto. Fenômenos
de bilocação. 3. ed. São Bernardo
do Campo: Correio Fraterno, 1990.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. In: ______
A codificação da doutrina espírita.
Araras: 1997.
______ A gênese. In: ______ A codificação
da doutrina espírita. Araras: 1997.
______ Fenômeno de Bi-corporiedade. Revista
Espírita, Sobradinho-DF, v. 1, n. 1958, p.
343-346, s/data.
PALHANO JUNIOR, Lamartine. Dicionário de filosofia
espírita. Rio de Janeiro: Celd, 1997.
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